terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Caio Fernando
Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa... Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitada, que coloco em palavras todo o meu processo mental, e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa. estou aprendendo que a vida é o agora, porque já não tenho mais idade para, dramaticamente, usar palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos estou aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas.substituo expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar", e é esse o jeito mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência e como diria Caio F. Abreu "Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virginia Woolf em outras vidas..." Me explica, que às vezes tenho medo. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim. Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas como alegria ou fé ou esperança. Mas só fico aqui parada, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada. E se eu mudasse meu destino num passe de mágica? Parece incrível ainda estar viva quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê, e não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim. Mas se eu tivesse insistido, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais - por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lembranças esquecidas numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Preciso continuar aqui onde está constantemente amanhecendo.Essa morte constante das coisas é o que mais dói, e o pó se acumula todos os dias sobre as emoções.
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